Cultura-Design

As Mulheres no Design Gráfico em Portugal

Uma breve introdução à História do Design Gráfico em Portugal e à inserção das Mulheres designers na disciplina até à década de 1980.

Texto de
Ana Lisboa
Publicado
em 23 de Maio de 2022

A Arte Gráfica em Portugal - início do século XX

Numa primeira fase, pode-se considerar que o aparecimento e implementação do design em Portugal, acontece a partir das Artes Decorativas, uma prática recorrente de movimentos que se manifestavam por toda a Europa, como o Arts & Crafts, Arte Nova e Art Déco.

Estes movimentos eram sinónimo de requinte e modernidade e introduziram um novo pensamento na sociedade e na arte, uma nova estética burguesa e moderna. Inclusive, o movimento Arts & Crafts proporcionou às mulheres mais oportunidades de trabalho e a possibilidade de terem um papel criativo como designers, permitindo, a algumas, a conquista da sua independência financeira e por sua vez, o sentimento de realização profissional.

Em Portugal, devido ao arranque tardio das indústrias e da natureza do regime do Estado Novo, este período é prolongado, provocando assim um atraso na consolidação do design relativamente à Europa. Assim, a exploração gráfica em Portugal começa a emergir no início do século XX, pela iniciativa do Estado Novo e de um grupo de artistas modernistas (artistas-decoradores), que aplicavam as suas habilidades artísticas para a promoção da indústria portuguesa.

As mulheres artistas que se destacaram no campo das artes gráficas, normalmente são associadas à pintura, manifestando-se posteriormente em outras formas de arte como o desenho, ilustração e cenografia. A maioria dos seus trabalhos inserem-se em ilustrações para livros infantis, jornais, revistas, publicações, entre outros. Destacam-se, como exemplo, as ilustrações realizadas na década de 1920 e 1930, por Mily Possoz (1888-1968), Alice Rey Colaço (1892-1978), Mamia Roque Gameiro (1901-1996), Raquel Roque Gameiro (1889-1970), Sarah Affonso (1899-1983) e Ofélia Marques (1902-1952).

Sarah Affonso, ilustrações para «O Tesouro da Casa Amarela: teatro infantil»,1932.
Mamia Roque Gameiro, capa «Varinha de Condão»,1924.

Os pioneiros do Design Gráfico em Portugal

A constituição do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) em 1933, mais tarde denominado Secretariado Nacional de Informação (SNI), sob a direção de António Ferro (1895-1956) marca o novo regime do Estado Novo e da sua propaganda política, ideológica e estética.

Com o objetivo de promover a arte moderna e de conquistar um público, António Ferro reúne uma equipa de profissionais para o desenvolvimento de diversos trabalhos no domínio das artes gráficas, artes plásticas, decoração e arquitetura. Permitindo assim não só a exploração gráfica como a demonstração de trabalhos de uma elevada qualidade estética, moderna, funcional que ajudou à construção da imagem do Estado Novo.

Considera-se a esta geração de artistas, os pioneiros do design gráfico, a chamada geração SPN/SNI, constituída por Fred Kradolfer (1903-1968), Thomaz de Mello (1906-1990), Carlos Botelho (1899-1982), Paulo Ferreira (1911-1999), entre outros.

A partir deste período, começa a existir um melhor entendimento do design gráfico como uma atividade profissional. Passa a ser necessário não só ter talento para as artes, como também um conjunto de processos integrados que devem estabelecer uma harmonização consciente entre a tipografia e imagem de forma a comunicar corretamente um produto, um serviço ou uma ideia.

A renovação do grafismo português

A intervenção de Fred Kradolfer nas artes gráficas, traz para Portugal uma renovação do grafismo português, estabelecendo uma maior noção da necessidade da simplificação gráfica e da sua comunicação. Realça a importância de se criar publicidade com uma mensagem clara, imediata e que seja esteticamente agradável, desvalorizando a saturação da informação.

Os conhecimentos de técnicas gráficas de Kradolfer, adquiridos na europa, inovaram a publicidade feita em Portugal, tornando-se um marco na História do Design Gráfico português e uma influência para um grande número de artistas que procuravam adaptar-se à modernização das artes gráficas.

Entre eles, destaca-se a artista Maria Keil (1914-2012), pertencente à segunda geração de modernistas, que viria a colaborar com Kradolfer no atelier Estúdio Técnico de Publicidade (ETP), tornando-se a primeira mulher a participar em trabalhos pioneiros de design gráfico para a publicidade portuguesa. A obra de Maria Keil é uma compilação de trabalhos em vários campos do design, nomeadamente em ilustração, publicidade, cenografia, figurinos, tapeçaria, design de móveis e azulejos.

No atelier ETP, evidencia-se o seu trabalho realizado para os anúncios da fabricante de lingerie feminina Pompadour.

Maria Keil, anúncio publicitário «Pompadour», 1941.
Maria Keil, capa «Algarve» volume turístico - Edições SNI, 1947.

Década de 1930 e 1940

No final da década de 1930, na condição de expandir e divulgar a imagem moderna portuguesa no estrangeiro, o SPN/SNI participa em grandes feiras internacionais em Paris (1937), Nova Iorque e São Francisco (1939). Mais tarde, para demonstrar a glorificação da imagem do regime e em simultâneo a sua neutralidade, perante uma Europa em guerra, António Ferro organiza a Exposição do Mundo Português (1940), com a colaboração de vários arquitetos e artistas, que estiveram envolvidos na construção de pavilhões, decoração de interiores e comunicação do evento. 

Durante a década de 1940, o SPN/SNI lança uma série de publicações que permitiram o crescimento das atividades gráficas em Portugal, nomeadamente a revista mensal de artes e turismo - Panorama (1914-1950); a revista mensal de cultura - Litoral (1944),a revista luso-brasileira - Atlântico (1942) e o livro Vida e Arte do Povo Português. A revista Panorama, não só promoveu a arte e turismo, como também divulgou as exposições organizadas pelo o SPN/SNI, assim como uma série de publicações que serviam os interesses das campanhas de propaganda do Estado Novo.

Destaca-se a atividade gráfica de Mily Possoz e Ofélia Marques, na colaboração em publicações e capas para estas revistas. Ainda nesta década o modernismo influencia fortemente o panorama do design gráfico português, que se insere sobretudo com ligações ao SPI/SPN. Paralelamente, existiam, outros movimentos de vanguarda a decorrer como o neo-realismo e surrealismo.

Ofélia Marques, capa para a Revista «Panorama» Nº12, 1942.
Ofélia Marques, capa para a Revista «Ver e crer» Nº27, 1947.

Enquanto o neo-realismo se manifestava contra as ideologias do regime, o surrealismo tentava combater a moralidade salazarista, apresentando uma proposta contracultural.

Apesar das internas disputas, estes movimentos contribuíram para um corte na estética moderna que se praticava em Portugal, dando lugar a um novo modernismo português, que se viria a assistir mais tarde, através das intervenções de Victor Palla (1922-2006), Sebastião Rodrigues (1929-1997), António Garcia (1925-2015), António Sena da Silva (1926-2001), Daciano da Costa (1930-2005), entre outros, ficando relacionados como a segunda geração do design português.

A influência das referências estrangeiras

A partir dos anos cinquenta, as referências estrangeiras acabaram por caracterizar o design e influenciar todos estes artistas, primeiro com a viagem de estudo de Frederico George (1915-1994) aos Estados Unidos em 1952, que lhe possibilitou o contato com as metodologias de ensino das universidades americanas.

Assim como, o convívio com os arquitetos Walter Gropius e Mies Van der Rohe, que desperta em Frederico George, a importância de se institucionalizar o design, por iniciativa dos fundamentos da teoria e prática da Bauhaus.

Posteriormente, pelo contato com as revistas estrangeiras, como a revista britânica Design ou a suíça Graphis, que contribuíram fortemente para a introdução do racionalismo em Portugal. Destaque para o trabalho de António Garcia na exposição internacional em Osaka ou a revista Almanaque, na expressão gráfica de Sebastião Rodrigues.

De certo modo, estas revistas contemplavam e revelavam o design que se fazia lá fora, sobretudo, num período em que o país tinha dificuldades de acesso à informação especializada.

A importância dada à disciplina do design foi apenas visível nas primeiras manifestações de interesse num tipo de ensino fora do poder político, no qual, a acção experimental e formativa de Frederico George e, por conseguinte, dos seus discípulos: Sena da Silva e Daciano da Costa foram fundamentais para afirmação do design português. Assim como, para atividade de designer, no qual reproduziam técnicas relativas à produção estrangeira e adaptavam dentro dos recursos possíveis à indústria e à educação nacional.

No final da década de 1950, a estratégia económica da ditadura do Estado Novo, ligada diretamente às aplicações dos Planos de Fomento, constituiu um fator impulsionador para o crescimento económico do país. Em particular para a indústria, uma vez que a partir da adesão à Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA), também permitiu a atividade económica internacional, com o aumento das suas exportações.

O Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII)

Em 1959, com as atividades do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII), foi possível a sedimentação de novos conceitos na área projetual que permitiu a progressão na área do design. Neste sentido, o INII era composto por vários laboratórios associados à tecnologia, com o objetivo de apoiar os setores industriais. Mais tarde, com a proposta de António Teixeira Guerra ao engenheiro António Magalhães Ramalho, que visava a constituição de um núcleo de investigação em torno da Arte e Tecnologia, levou à criação do Núcleo de Arte e Arquitetura Industrial (NAAI).

A primeira atividade deste núcleo foi desenvolver processos relacionados ao design de produto e aos métodos de produção, realizando-se muitas ações do NAAI na Fábrica-Escola Irmãos Stephens (FEIS), da Marinha Grande, onde a designer Maria Helena Matos colaborou na área de design de vidro, através de uma bolsa de estudos concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG). Em 1960, a convite de Magalhães Ramalho, Maria Helena Matos colabora com o NAAI, ficando como responsável do núcleo em substituição de Teixeira Guerra. Entre o período de 1960-1974, as ações de Maria Helena Matos viriam a marcar o processo de afirmação, consolidação e divulgação do design português.

A Institucionalização da disciplina do Design

Durante a década 1960 e 1970, assiste-se gradualmente à consistente visibilidade do design português, desde as primeiras experiências de ensino de Frederico George e Daciano da Costa, até à criação de cursos no domínio do ensino do design em Portugal, nascido fora dos quadros académicos. Como o caso do curso de Formação Artística, em 1965, na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA); a fundação do Instituto de Arte e Decoração (IADE) em 1969, que se distingue por ser pioneiro no ensino vocacionado em design; e a fundação do Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co), em 1973. No entanto, apenas com a reforma (1975-1978) dos cursos de Design nas Escolas Superiores de Belas-Artes do Porto e de Lisboa é que o ensino oficial reconhece o design como disciplina autónoma.

Por sua vez, as bolsas de estudo disponibilizadas pela FCG na segunda metade da década de 1960, possibilitaram a formação no estrangeiro a diversos profissionais. Obrigados pelo regulamento da bolsa a colaborar com o INII, viriam a estudar design no Reino Unido, regressando, no final da década, como os primeiros designers portugueses com formação superior em design, como o caso de Alda Rosa (1936), Cristina Reis (1945), Moura George (1944), José Brandão (1944) Jorge Pacheco (1940-2010) e Victor da Silva (1932), que viriam a constituir a terceira geração de designers, responsáveis pelo novo design português.

Orientação gráfica de Maria Manuela Correia, capa do catálogo da «Exposição Internacional de Industrial Design», Lisboa: INII, 1965.

A compreensão do design, como disciplina, acontece na 1ª Quinzena de Estética Industrial (1965), uma ação do núcleo do INII no Palácio Foz, em Lisboa, da responsabilidade de Maria Helena Matos. O evento consistiu numa série de conferências sobre design industrial, por vários especialistas europeus e, ainda, uma Exposição Internacional de Industrial Design, que estabeleceu um marco na História do Design em Portugal. Pela primeira vez a palavra «design» foi reconhecida e inserida como título da exposição e do respectivo catálogo.

As exposições do Design Português (1971 e 1973)

É no seguimento desta ação e em pleno contexto da Primavera Marcelista, que Maria Helena Matos organiza a primeira de duas exposições - Exposição de Design Português (1971 e 1973). Estabelecendo, novamente, um marco fundamental para a institucionalização do design como disciplina, uma vez que a palavra design aparece oficializada no país e a expressão designer passa a designar uma atividade profissional, cujo significado compreendia o projeto e a intenção de se encontrar respostas para problemas concretos.

A 1ª Exposição de Design Português acontece na Feira Internacional de Lisboa (FIL), com o apoio do engenheiro José Torres Campos (segundo Diretor do INII) e os patrocínios do Fundo de Fomento de Exportação (FFE), da Associação Industrial Portuguesa (AIP) e da Metalúrgica da Longra.

Alda Rosa e Cristina Reis, capas para os catálogos da « e Exposição de Design Português», Lisboa: INII, 1971 e 1973.

A proposta para esta exposição surge pelos gerentes técnicos da empresa de mobiliário Interforma, que propôs ao INII, a realização de uma mostra de design industrial português. Tinha como objetivo, apresentar e tornar acessível a um grande público, uma seleção de trabalhos que pudesse demonstrar e promover o que melhor se fazia de design em Portugal.

Esta exposição distingue-se pelo diversificado conjunto de trabalhos realizados por profissionais da área das artes gráficas e decorativas e pela sua amplitude sobre uma nova postura da designação da palavra design e de novas possibilidades industriais, que viriam a transformar a sociedade e o mundo.

Para a conceção e realização das exposições, o núcleo pode contar com a colaboração das designers Alda Rosa (1936), Cristina Reis (1945), Margarida D’Orey (1947), Conceição Espinho (1946), Regina Andrade (1952) e os escultores Eduardo Sérgio (1937) e José Santa-Bárbara (1936). Ainda em 1971, realizou-se no Palácio da Bolsa no Porto uma repetição desta exposição com uma nova apresentação dos produtos de design português.

Durante este período, o NAAI muda a sua designação para Núcleo de Design Industrial e é sobre esta denominação que, em 1973, volta a realizar uma 2ª Exposição de Design Português, novamente na FIL, com o patrocínio do Fundo de Fomento de Exportação (FFE) e da Associação Industrial Portuguesa (AIP), contudo, desta vez, concebida e dirigida por Sena da Silva e pela Cooperativa PRAXIS, que contribuiu no desenvolvimento do projeto, coordenação de textos do catálogo, apoio gráfico e montagem da exposição.

Destaca-se ainda nesta exposição, o trabalho e a colaboração das designers Assunção Cordovil (1947), Filipa Amaral Neto Tainha (1948) e Madalena Figueiredo (1944), na cooperativa PRAXIS. Esta exposição fica marcada pela sua consistência e organização, assim como pela sua comunicação direta para o público, onde se abordava questões sobre o que é o design, o que pode ou não ser design. Propondo uma definição atualizada do conceito da própria palavra: 

«o design é uma atividade que compromete indiscriminadamente tanto os industriais, quanto os quadros técnicos, os responsáveis políticos, os consumidores ou os profissionais de design. Cabe a todos eles encontrar as respostas adequadas às exigências que temos de enfrentar. O design que há reflete as responsabilidades de todos eles».

2ªExposição de Design Português, 1973, p.11

O Design pós revolução de 25 de Abril

A partir do 25 de Abril de 1974 e do processo revolucionário decorrido entre 1974 e 1976, a vida política, social, económica e cultural portuguesa altera-se radicalmente. Assiste-se à criação de mais cursos de Design e Comunicação Visual na Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA), a sucessão de simpósios e conferências, a criação de novos ateliers de design, como por exemplo a empresa Risco, vocacionada para o design gráfico e industrial de Daciano da Costa e Cruz de Carvalho, na qual Assunção Cordovil viria também a colaborar como sócia e designer gráfica.

Assiste-se, ainda, a um aumento na produção teórica com publicações regulares de artigos em catálogos, jornais e revistas portuguesas como a Arquitetura, Binário, Casa & Decoração, Estética Industrial e a Gráfica 70, uma revista dedicada ao design gráfico, promovida pela Metalúrgica da Longra e a Fundação Calouste Gulbenkian.

Neste período, a partir da necessidade de se reformular identidades visuais de empresas públicas, dá-se o reconhecimento do papel do designer gráfico na sociedade, assistindo-se a uma gradual reformulação gráfica dos jornais e revistas, bem como a conceção de cartazes de peças de teatro, filmes e acontecimentos musicais, de genéricos de filmes, de capas de livros e de discos, entre outros.

José Brandão, (com colaboração de Cristina Reis na composição do texto e no acompanhamento da produção), capa para disco «O Coro dos Tribunais», 1975.
Alda Rosa e José Brandão, cartaz para o filme «Máscaras», 1976.

Associação Portuguesa de Designers

A progressão do design é lenta e durante a década de 1970, salvo raras exceções, a prática do design mantém-se inalterada face ao controlo das suas figuras tutelares. Em 1976, é criada a Associação Portuguesa de Designers (APD), onde a lista de sócios é maioritariamente formada por docentes da ESBAL e por designers a exercer na área de Lisboa. Entre eles destacam-se Sebastião Rodrigues, Rogério Ribeiro, Vítor Manaças, Salette Tavares Brandão, José Brandão, Sena da Silva, António Garcia, Alda Rosa, Robin Fior, Madalena Figueiredo entre outros.

No início da década de 1980, a Associação Portuguesa de Designers (APD) promove, na SNBA, a Exposição Design & Circunstância (1982), que compreendeu o trabalho de 38 designers, com o apoio da AIP, do Banco Português do Atlântico e da FCG. Esta exposição assinala-se, sobretudo, pela afirmação profissional e geracional dos designers da APD, que corresponde tanto a um grupo de designers descendentes do modernismo português como de um período marcado por uma nostalgia modernista.

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Este artigo foi escrito pela Ana Lisboa, Head of Design @ MD3 STUDIO.

A Ana é designer e dirige a equipa de Design do STUDIO. Para além do Design e da gestão da equipa, a Ana toma conta do nosso bem-estar. Tem olho de falcão para objetos desalinhados, adora o estilo minimalista e é dona de um gosto particular para a estética vanguardista.