Design

Abel Manta e a ironia gráfica antifascista

No 25 de Abril prestamos homenagem a Abel Manta, mestre dos elementos gráficos, que combateu com a sua arte irónica um regime opressor.

Texto de
Jorge Silva
Publicado
em 22 de Abril de 2022

Nesta celebração dos 48 anos do eterno 25 de Abril não podíamos deixar de prestar homenagem a João Abel Manta, mestre no uso de elementos gráficos, que combateu com a sua arte um regime opressor de forma tão irónica quanto inteligente. 

A força imagética das suas ilustrações era plástica e incisiva e atacava com um tom satírico como ninguém. Teve também um papel de elevada importância na formação de um público pós-revolução, a quem esconjurou lembranças tristes e tiranas. 

A sua arte não perdeu força nem cor

A obra perdura no tempo e quase meio século depois chega-nos com a mesma voz tão urgente quanto libertadora como outrora. A ridicularização da ditadura tornou-se intemporal e expôs o desastre da colonização e da repressão política vivida até 1974, pelo que se tornou uma voz emblemática de um Portugal revolucionário.

A propaganda do Estado Novo

Até 25 de Abril, Portugal atravessou politicamente um período onde a censura era forte e a liberdade de expressão severamente reprimida. O povo foi constantemente exposto a propaganda unilateral, levando-o a acreditar que apenas os ideais do Estado Novo conseguiriam levar à salvação do país. 

A propaganda do Estado Novo reforçava estes ideais, com a proclamação de um novo regime de disciplina e autoridade que viria proteger a nação. 

A comunicação gráfica utilizada na propaganda da época, era dotada de elementos de raiz popular e influenciada pelo heroísmo, como se pode ver pelos exemplos abaixo. 

Cartazes de Propaganda do Estado Novo

Os cartazes eram utilitários e informativos

Os cartazes eram utilitários e informativos e tinham uma função de instrução e de intervenção na sociedade. 

Eram constantemente reforçados valores como o apreço à religião, à nação e à família – sempre com destaque a Salazar – numa tentativa de unir o povo. 

Os cartazes eram o principal meio de comunicação do Estado e uma forma de fazer chegar a toda a população os seus ideais pelo que, para não existirem equívocos, a linguagem era o mais universal e clara possível: a informação textual era reduzida (a maioria do povo era iletrada) e dava-se prioridade à imagética. 

Estes elementos eram frequentemente dotados de realismo e rigidez e ainda de contraste na sua mensagem de ordem e desordem. Os tons negros e frios suportavam regularmente as formas das figuras que eram iluminadas por tons cremes e quentes como o laranja e amarelo, numa aproximação simbólica das searas, apelando à prosperidade. 

Era também costume encontrar tons vermelhos em elementos aos quais se pretendia chamar a atenção. Em relação à tipografia, as fontes serifadas apresentavam-se regularmente em caixa alta e condensadas, o que dava um tom elegante à mensagem; por outro lado, o recurso a fontes não serifadas de baixo contraste no traço invocava rigidez e um tom de voz imperativo.

Abel Manta e o ativismo político

É neste contexto que recordamos João Abel Manta, artista plástico, nascido em 1928 e à beira da ditadura do Estado Novo foi desde cedo instruído a ter uma flexibilidade intelectual pelos seus pais, que o levaram a viajar a grandes capitais europeias enquanto jovem. 

João Abel Manta (1928)

Assistir às tertúlias sobre política e cultura que aconteciam em sua casa, muitas vezes feitas em surdina, despertou-lhe a resistência à autoridade e visão combativa de regimes políticos opressores. Chegou mesmo a ser preso pela PIDE por pertencer a um grupo considerado clandestino. 

Foi na arte que João Abel Manta encontrou a sua voz e apesar de ter estudado e tomado arquitetura como profissão, foi no desenho que encontrou forma de intervir socialmente com o seu talento estético vincado de ativismo político.

Deste modo, nos anos 50 trabalhou como ilustrador para o jornal “O Século” e nos anos 60 continuou a apurar o seu estilo gráfico para revistas como o “o Almanaque” ou a “Seara Nova”.

Abel Manta e a liberdade de expressão do povo oprimido

Foi após o 25 de abril, por motivos óbvios, que a voz de Abel Manta mais se fez ouvir. Neste tempo tornou-se um afincado defensor da Revolução dos Cravos, dos seus valores, da liberdade do povo e de expressão.

O seu cartoon, ilustração humorística de carácter crítico que retrata um acontecimento social ou quotidiano, foi irreverente numa época antes e pós-ditadura e é facilmente identificável com o contorno a traço grosso. 

Além de cartoons, João Abel Manta produzia pinturas e outro tipo de ilustrações, mas a escolha deste tipo de ilustração recai sobre a necessidade de assimilação da mensagem imediata do desenho de intervenção e possibilitava um diálogo directo com o público. 

O que melhor caracteriza estas obras são, de facto, o seu tom incisivo e satírico numa altura em que a censura fechava tipografias e proibia novas ideologias e os seus pares se refugiavam num humor simples e popular. 

As obras interventivas de Abel Manta

As obras de João Abel Maia eram irónicas e parodiavam a rígida e absurda realidade vivida na altura. Chegou mesmo a opor-se à televisão em 1972, quando publicou uma ilustração alusiva ao Festival da Canção onde a bandeira foi utilizada, aos olhos da censura, de forma abusiva e desrespeitadora. Tal ilustração levou-o a ter de se defender em tribunal. 

O domínio das artes gráficas era notável como se pode ver pelos cartazes alusivos ao Movimento das Forças Armadas e cartoons relativos à pós revolução, período constantemente ameaçado pelas forças reacionárias. 

Desta forma, contrastavam fortemente e de forma inequívoca com as ilustrações e cartazes encomendados pelo Secretariado de Propaganda Nacional, não apenas na cor – João Abel Manta recorria a tons escuros que apelavam à opressão e política social no Estado Novo; tendo aberto a cor no período pós revolução –, mas também na mensagem como previamente explicado.

Abel Manta (Imagens da esquerda para a direita): Ilustração "Fascistas Mal Enterrados", Cartaz "MFA - Sentinela do Povo", Ilustração "Escafandro e Detenção de Abel Manta"

O pós 25 de Abril de 1974 e a democratização na criatividade

A criatividade deixou de estar sujeita a aprovação prévia de uma identidade estatal ou de obedecer a finalidades programáticas e políticas. Deixou de estar centrada na imaginação de um império para se centrar na imaginação do artista, onde sempre deveria ter estado. 

Neste período, tanto a cultura como a arte foram entregues ao povo e este gesto permitiu a descoberta de novas formas de técnicas e de expressão artística. 

O cartaz, outrora monopolizado pela ditadura, tornou-se do povo e a mensagem salazarista virou encarnada de cravos e de auto-expressão. Foi também graças à propaganda pública que este deixou de ser uniformizado. 

A abertura do país ao exterior

A abertura do país ao exterior fez com que se alargasse a liberdade de expressão e se percepcionasse a produção artística mundial. Descobriu-se, por exemplo, a arte conceptual, inovadora no panorama nacional. Surgiram murais e a iconografia tornou-se presente. 

O teatro inundou-se de pessoas a quem lhes tinha sido negado o poder de ver peças rejeitadas pela censura e a música veio do exterior para o interior do país. O cinema deixou de retratar o Império e a imagem exterior e focou-se no particular. 

Deixou de retratar estereótipos comportamentais, abraçou o interior das casas e das pessoas. Abraçou todas as outras artes e mostrou textos até então proibidos. 

A população teve, ainda, acesso a literatura que retratou o colonialismo ou a evolução da sociedade desde a monarquia à democracia. 

Como Abel Manta influenciou o Design português

Não podemos concluir este artigo sem mencionar como a Revolução dos Cravos nos afecta actualmente. Foi graças à intervenção do Movimento das Forças Armadas que a cultura gráfica em Portugal expandiu de forma tão rápida.

A conquista da liberdade de expressão foi um dos elementos-chave que mais afectou a sociedade portuguesa e a forma como o cartaz passou a ser utilizado mudou radicalmente.

A troca de ideias com o exterior fertilizou a nossa cultura visual e o cartaz deixou de ser um veículo político para passar a ser do povo e dos seus ideais, aproximando-o.

João Abel Manta continuará sempre a inspirar-nos não apenas como pessoas mas como designers pela sua intervenção e crítica incisiva através de elementos gráficos tão expressivos quanto belos.

Temos uma equipa de designers pronta para responder aos desafios de diversificadas marcas. Conheça o nosso trabalho.

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Este artigo foi escrito pelo Jorge Silva, Digital Designer da MD3 STUDIO.

O Jorge é designer gráfico e gosta de explorar as suas capacidades. Tem uma mente criativa e a vontade de inovar fá-lo trazer novas e refrescantes visões sobre o mundo gráfico e digital.